
No dia 23 de abril, celebramos uma das forças mais presentes na vida cotidiana: Ogum. Ogum é, nas tradições de matriz africana, um orixá fundamental para compreendermos não apenas a espiritualidade, mas também o próprio sentido de organização da vida em sociedade. Ogum é movimento, mas também é permanência.
Na tradição iorubá, é considerado um Irúnmolè: uma força primordial criada para ser exatamente aquilo que é. Ogum não se torna, Ogum é. Sua essência não se desvia: ele é o caminho aberto, a tecnologia ancestral, o trabalho em sua forma mais concreta. É importante, inclusive, compreender as nuances do próprio nome. A pronúncia “Ogum” pode se referir a diferentes elementos na cultura iorubá: há Ògún, o orixá; há Ògùn, também associado a um rio na Nigéria; e há sentidos que se transformam conforme a grafia e o contexto. No entanto, quando falamos de Ogum enquanto orixá, falamos de uma força civilizatória.
Foi Ogum quem forjou o ferro
E ao forjar o ferro, criou ferramentas. E ao criar ferramentas, possibilitou o trabalho. E ao estabelecer o trabalho, permitiu que a humanidade deixasse de ser nômade e passasse a construir territórios, plantar, colher, habitar.
Nesse sentido, Ogum não é apenas um guerreiro, ele é um dos pilares da civilização. Por isso, é preciso ajustar o olhar: Ogum não é o “orixá da guerra”, como muitas vezes se reduz no senso comum. Ogum também é um orixá guerreiro: aquele que vai à frente, que abre caminhos, que enfrenta os obstáculos para que a vida aconteça. Segundo as narrativas iorubás, foi Ogum quem desceu primeiro à Terra, desbravando o espaço e garantindo que os demais orixás pudessem cumprir seus papéis.
Ogum é aquele que acorda cedo
É aquele que pega na ferramenta, que enfrenta a lida diária, que constrói, que insiste. Está presente na rotina de quem trabalha, de quem busca sustento, de quem organiza a própria vida com disciplina e compromisso. Podemos dizer também que Ogum é tecnologia, não apenas no sentido moderno, mas como continuidade da inteligência humana aplicada à transformação do mundo.
No Terreiro de Umbanda Mensageiro dos Ventos, essa força se manifesta também na tradição da Feijoada de Ogum. Servida sobre a esteira, com a panela ao centro e os filhos de santo ao redor, esse momento vai além do alimento: é partilha, é coletividade, é fundamento. Uma tradição criada pelo Pai Procópio de Ogum, no candomblé, e que atravessa os caminhos até chegar à Umbanda como expressão de axé e continuidade.
Nesse mesmo contexto, celebramos também os caboclos boiadeiros e caboclos de couro, entidades que caminham sob a vibração de Ogum. São forças que representam resistência, trabalho no campo, proteção e condução: espíritos que conhecem a lida, o chão e o esforço cotidiano.
Falar de Ogum, portanto, é falar de compromisso com a vida. É entender que abrir caminhos não é apenas um ato espiritual, mas uma prática diária. Que cada escolha, cada esforço e cada construção carrega em si a energia desse orixá que nunca recua diante do trabalho.
Ogum é o que é. E é nessa constância que encontramos direção.
Saravá Ogum!