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De Exu a Pombagira: Caminhos, Histórias e Força Ancestral

Por Pai Nathan de Exu Ventania

A Umbanda é uma religião que nasce do encontro de matrizes africanas e indígenas, que se expressa com grande riqueza simbólica, espiritual e cultural. Dentro desse universo, poucas figuras despertam tantas dúvidas — e também tanto fascínio — quanto Exu e Pombagira.

Entender quem são, como surgem e de onde vêm essas presenças sagradas é parte essencial da construção de uma Umbanda consciente e enraizada na ancestralidade.

Primeiro, é importante compreender que Exu não é uma palavra única, tampouco tem apenas um significado.

No Brasil, escrevemos “EXU”. Já no idioma yorubá, a grafia correta é Èṣù (ESU). E esse detalhe diz muito.
Èṣù, no território yorubá, é um Orixá poderoso, guardião dos caminhos, mensageiro entre o mundo visível (ayê) e o mundo espiritual (orun), senhor do movimento e da transformação. É temido, respeitado e cultuado como um dos pilares espirituais do povo yorubá.

Quando essa tradição chega ao Brasil, Èṣù se encontra com as experiências do povo negro escravizado, com as crenças ameríndias e com a força “criativa” do povo brasileiro — e, assim, nasce também a figura do Exu entidade, que atua dentro da Umbanda com outra configuração, outra linguagem e outra dinâmica.

Na Umbanda, Exu entidade se apresenta com nomes como Tranca Rua, Gira Mundo, Sete Encruzilhadas, Capa Preta e tantos outros. Não são os mesmos que o Orixá Èṣù, mas espíritos trabalhadores que atuam orientando, abrindo caminhos e quebrando demandas. Ambos, porém — Èṣù e Exu — carregam o princípio da comunicação, do movimento e da transformação.

Já a figura da Pombagira carrega uma trajetória igualmente profunda, marcada pela ancestralidade africana e pela resistência das mulheres negras no Brasil.

O termo “Pombagira” é uma corruptela de Pambu Njila, palavra de origem bantu, trazida pelos povos africanos escravizados, principalmente de países como Angola e Congo, que chegaram ao Brasil no período escravista, entre os séculos XVI e XIX. Pambu significa “senhor” e Njila significa “caminho”. Pambu Njila é, portanto, o Senhor dos Caminhos, uma divindade bantu que atua nos caminhos, nos cruzamentos, nas encruzilhadas espirituais e que passou a ter, em terras brasileiras, um caráter feminino e independente.

Com a chegada dos povos yorubás ao Brasil em maior número no século XIX, novas referências espirituais se somam às tradições bantu, e essa entidade passa a ganhar o nome popular de Pombagira, consolidando-se dentro da Umbanda como uma força feminina livre, intensa, sábia e profundamente conectada às dores e vitórias das mulheres.

A Pombagira não é “espírito sedutor”, tampouco caricatura. Ela é:

• Conselho para mulheres em situações de sofrimento afetivo.
• Força para quem enfrenta opressões.
• Palavra para quem teve sua voz silenciada.
• Empoderamento para mulheres que buscam autonomia, autoestima e libertação.
• Justiça, amparo e acolhimento.

Pombagira atua nas camadas emocionais e sociais que historicamente feriram o feminino. E é por isso que tantas mulheres se reconhecem nela e encontram nela equilíbrio e coragem.

Tanto Exu quanto Pombagira são pilares importantes da Umbanda Afro-rural praticada no Terreiro de Umbanda Mensageiro dos Ventos. Aqui, entendemos esses espíritos como trabalhadores dedicados, que ajudam, aconselham, afastam demandas, protegem e ensinam.

São espíritos profundamente ligadas ao povo, à vida cotidiana, às dificuldades reais da caminhada humana e, por isso, são tão presentes, tão próximos, tão íntimos.

Celebrar Exu e Pombagira é celebrar sabedoria, força, espiritualidade e ancestralidade viva.

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